O IMPACTO DO CARNATAL na incidência do Sars-CoV-2 no RN

Os dados após o período de latência mostram o impacto do CARNATAL na evolução da doença no estado do Rio Grande do Norte. Na última semana de dezembro, 15 dias após o CARNATAL, a média diária de solicitações de leitos UTI-COVID quase dobrou quando comparada com a média do mês de Novembro, passando de 16 solicitações em média em novembro para picos de 30 solicitações de leitos críticos de UTI COVID-19 em dezembro. O mesmo comportamento de piora foi observado na análise da métrica de evolução da taxa de incidência do sars-cov-2, (COVID-19) por milhão de habitantes, que estava em queda, e inverteu sua tendência 15 dias após o CARNATAL, como previsto (referências abaixo).

Em 2021 o evento CARNATAL (carnaval fora de época em Natal/RN) ocorreu no período de 09 a 12 de dezembro de 2021. No final de novembro de 2021, os indicadores epidemiológicos indicavam uma diminuição consistente da pandemia. No caso, a evolução da taxa de incidência do Sars-CoV-2 por milhão de habitantes no estado do RN seguia em queda. Isto seguiu inclusive durante o CARNATAL e após o evento, devido obviamente a conhecida latência da doença. 15.4 dias é o período médio para que a versão primeira do vírus atravesse as fases de contágio até agravamento.

Evolução dos indicadores taxa de incidência COVID-19 por milhão de habitantes e evolução da quantidade média de solicitações de leitos críticos UTI COVID-19 no Estado do Rio Grande do Norte nos meses de novembro e dezembro de 2021, mostram um impacto de piora da pandemia no RN. Foi um retrocesso dos avanços alcançados. Com base nos dados apresentados nas figuras abaixo, percebemos que o CARNATAL 2021 modificou a tendência de queda que fora observada de forma consistente no início do mês de dezembro de 2021, e contribuiu no sentido de prejudicar a capacidade de atendimento nas urgências.

Figura 1: Evolução da taxa de incidência COVID-19 por milhão de habitantes no estado do Rio Grande do Norte. A seta vermelha indica a nova direção, após a mudança da tendência percebida duas semas após o CARNATAL.
Figura 2: Evolução da quantidade média de solicitações de leitos críticos de UTI COVID-19
no Estado do Rio Grande do Norte nos meses de novembro e dezembro de 2021

SARS-CoV-2 Orginal & Ômicron: A forma original do SARS-CoV-2 é um pouco lenta. A nova variante Ômicron parece ser a mais rápida. Isso torna mais difícil de entender sua dinâmica com os testes atuais. As estimativas para o período de incubação, passou de cinco, seis dias, no caso da Alfa até quatro dias na Delta e chegando até três dias para a Ômicron. Parar de testar é uma péssima idéia neste momento.

Delta: em média, o vírus SARS-CoV-2 original se espalha de uma pessoa para duas ou três. O período de incubação de apenas quatro dias. É  mais rápido do que os seis dias vistos no vírus original.  As pessoas são contagiosas mais rapidamente.Ômicron: ainda não se sabe ao certo sua taxa de transmissão ou período de incubação e  taxas de crescimento da variante, pois pode depender muitos fatores. A Ômicron é muito mais infecciosa e existem indícios ainda não confirmados de que pode ter letalidade menor. 

Estudos estatísticos mostraram que existe uma latência média de 14,5 dias, do início dos sintomas até intubação na primeira versão da doença. São de 4 a 5 dias da intubação até o óbito em pacientes graves com COVID-19. Junte-se a isso uma mistura de variantes, atraso nos testes, apagão de dados e vacinação e a questão se torna bem complexa. Publicamos antes do CARNATAL nosso posicionalmente, onde mostramos que insistir na festa traria resultados negativos, e aqui temos a confirmação das nossas suspeitas.

Sempre foi, e é evidentemente que por se tratar de uma doença de transmissão respiratória (pessoa — pessoa), essa transmissão seria mais eficiente e intensa com o aumento da aglomeração de pessoas. A capacidade de produzir novas variantes com maior transmissibilidade, ocorrência de imunidade não-duradoura representam fatores propulsores na transmissão. Acontece agora, o previsto. O vírus SARS CoV-2 mudou sua evolução de incidência e isto já impactou na hospitalização, (demanda solicitações de leito de UTI) a consequência será refletida no número de mortes por esta doença quando comparamos janeiro de 2022 com novembro e dezembro de 2021.

Figura 3a: Diagramas de risco para o Rio Grande do Norte em 3 de Janeiro de 2022. Cada ponto representa um dia na evolução da pandemia no RN. O código de cores nos informa sobre o crescimento do potencial efetivo (EPG) de risco. O ponto branco atual encontra-se na região vermelha, com alto RISCO. Metodologia: Front. Public Health, 08 July 2021 | https://doi.org/10.3389/fpubh.2021.633123. Diagrama por Jones O Albuquerque LIKA-UFPE.
Figura 3b: Diagramas de risco para o Rio Grande do Norte em 3 de Janeiro de 2022. Cada ponto representa um dia na evolução da pandemia no RN. O código de cores nos informa sobre o crescimento do potencial efetivo (EPG) de risco. O ponto branco atual encontra-se na região vermelha, com alto RISCO. Metodologia: Front. Public Health, 08 July 2021 | https://doi.org/10.3389/fpubh.2021.633123. Diagrama por Jones O Albuquerque LIKA-UFPE.
Figura 3c: Diagramas de risco para o Brasil entre 14.12.21 e 06.12.21. A evolução do Brasil integrado segiu a banda amarela com EPG moderado. Metodologia: Front. Public Health, 08 July 2021 | https://doi.org/10.3389/fpubh.2021.633123. Diagrama por Jones O Albuquerque LIKA-UFPE.

Os dados após o período de latência mostram claramente o impacto do CARNATAL na evolução da doença no estado do Rio Grande do Norte. Na última semana de dezembro, 15 dias após o CARNATAL, a média diária de solicitações de leitos UTI-COVID aumentou consideravelmente. Passou de dobrou quando comparada com a média do mês de Novembro, passando de 16 solicitações em média em novembro para picos de 30 solicitações de leitos críticos de UTI COVID-19 em dezembro. O mesmo comportamento de piora foi observado na análise da evolução da taxa de incidência COVID-19 por milhão de habitantes, que estava em queda, e inverteu sua tendência 15 dias após o CARNATAL.

Os dados presentes nas Figuras 1, 2 e 3 mostram que a narrativa circulada na semana seguinte ao CARNATAL sobre o não-impacto da festa na evolução da doença cai por terra. As declarações foram apressadas e sem o devido rigor científico. Tal situação desorienta, desinforma e coloca em risco a população. — Além disso, torna o enfrentamento da pandemia difícil. Eu gostaria muito de termninar esta análise com palavras positivas, seria reconfortante se estivéssemos errados com as previsões que fizemos do pós-carnatal, porém o que vemos aqui é a confirmação da mudança no avanço da doença (piora) 15 dias após o CARNATAL. O que ocorrerá daqui pra frente, depende unicamenta da dinâmica da população frente a evolução da taxa de vacinação.

“O CARNATAL, e o Carnaval, geram condições perfeitas para o aumento da transmissão comunitária. O CarNATAL, como previsto, produziu piora nas métricas de acompanhamento da doença ( ver gráficos). Já para o carnaval, será preciso repensar a festa afins de minimizar danos. Isto será mais que uma opção, será uma necessidade”

Quanto custou o CARNATAL para o Estado do Rio Grande do Norte em Termos do aumento de solicitações de leitos críticos de UTI COVID-19?

É perceptível o esforço de um grande contingente de profissionais da saúde que se desdobra todos os dias para minimizar os efeitos da pandemia. Estes médicos trabalham além do esforço humano. No enfrentamento, também são necessários equipamentos e insumos. Com o CARNATAL, aconteceu um aumento da pressão nas requisições por leitos de UTI COVID-19, como mostrado acima. A pergunta menos significante diante da vida humana, porém importante mesmo assim, seria, quanto custou em termos de leitos de UTI esta festa PRIVADA? Aproximadamente, segundo o SUS, uma UTI custa entre R$ 2,5 mil a R$ 3 mil por dia. Por baixo, o número de leitos nos últimos dias de dezembro, comparado com novembro de 2021 aumentou, na melhor das hipóteses, de 20% devido ao CARNATAL (Figuras, 1,2 e 3). O RN em novembro operou com 146 leitos críticos COVID-19. Já utilizando a série histórica das Solicitações de Leitos COVID disponível no REGULARN, vemos que em 20 novembro eram 22 solicitações diárias. Em 31 de Dezembro, as solicitações foram para 32 na média móvel. O que vinha diminuindo aumentou e a diferença de 10 leitos por dia nos últimos dias de dezembro custaram, numa conta mínima, algo como 10 leitos x 2700 R$ x 7 dias, ou seja, 190 mil reais a mais para somente a última semana de dezembro de 2021. O SUS pagou a conta? O prejuízo maior é humano e são os óbitos. Esta conta deve chegar mais tarde devido a dinâmica intrínseca e latente da doença e dependente de apagões e sonegação da dados.

Nota*: A saber, os casos de gripe N1H1 são retirados na triagem após o teste negativo COVID-19, ou seja, o CARNATAL também impactou com o espalhamento da gripe, apesar deste ponto não fazer parte da referida análise.

“Em 08.12.2021, apesar da vacinação e seus avanços, o número de óbitos se mantém em um patamar que mostra que a doença não desapareceu”

Isto é visto também no número de casos e é sem dúvida um fato preocupante, pois em uma festa como o Carnatal, apesar dos divulgados critérios de segurança, as pessoas não devem manter distanciamento social e tão pouco vão usar máscaras o tempo todo. Então, possivelmente, o evento vai causar um sobressalto nas distribuições e, obviamente, fatalidades devem acontecer devido ao aumento da dinâmica de contágio nos dias de Carnatal, argumenta o professor José-Dias (UFRN).

“o Carnatal pode, sim, quebrar esta suavidade e inserir alguma perturbação imprevisível na situação atual dos dados, pois o limiar de segurança não foi amplamente atingido”.

Publicado em 8 de Dezembro de 2021 no AGORA RN: https://agorarn.com.br/ultimas/e-seguro-realizar-o-carnatal-em-meio-a-pandemia-da-covid-19-especialistas-do-rn-respondem/

Referências

Carnatal piora índices de contaminação e solicitações de leitos covid-19 no RN, diz pesquisador. https://www.saibamais.jor.br/carnatal-piora-indices-de-contaminacao-e-solicitacoes-de-leitos-covid-19-no-rn-diz-pesquisador/

Covid-19: sair de casa significa entrar em um jogo de sorte e azar, alerta cientista sobre momento da pandemia no RN. [SAIBA MAIS] https://www.saibamais.jor.br/covid-19-sair-de-casa-significa-entrar-em-um-jogo-de-sorte-e-azar-alerta-cientista-sobre-momento-da-pandemia-no-rn/

É seguro realizar o Carnatal em meio à pandemia de Covid-19? Especialistas respondem Professores da UFRN analisam o cenário epidemiológico para realização do evento, que será realizado em dezembro https://agorarn.com.br/ultimas/e-seguro-realizar-o-carnatal-em-meio-a-pandemia-da-covid-19-especialistas-do-rn-respondem/